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31/07/2005

 
Alunos se preparam para disputar Olimpíada Paulista de Física, cujas inscrições vão até 12 de agosto

Maria do Carmo/Folha Imagem
Emanuelle da Silva, 17, que divide o tempo entre a física e os ensaios de sua banda de pop/rock


Maria do Carmo/Folha Imagem
Rafael Marera, 12, que vai participar pela primeira vez


Campo de força

Manu, 17, é guitarrista e vocalista de uma banda de pop/ rock, tem namorado e quer ser médica. Felipe, 18, faz musculação, gosta de música eletrônica e vai prestar vestibular para engenharia aeronáutica. Rafael, 12, é um aluno exemplar e já tem planejado seu futuro: vai entrar para a Marinha e depois estudar direito para se tornar juiz. O que esses três jovens têm em comum? Adoram física.

Não por acaso, estão entre os melhores na disciplina em suas escolas e vão participar da 5ª edição da Olimpíada Paulista de Física, que acontecerá em setembro e outubro deste ano e cujas inscrições vão até o dia 12 de agosto.

"O grande barato da física é o desafio. Não é 'decoreba' de fórmulas, como a maioria pensa. Você consegue aplicar em tudo no seu dia-a-dia", afirma Felipe Benincasa, navegando contra a maré dos colegas, para quem a disciplina é uma daquelas dispensáveis, sem nenhum uso "prático" no futuro. No último ano de um colégio particular na zona sul, Felipe já disputou a Olimpíada Brasileira e é a segunda vez que participa da competição estadual.

"A primeira vez foi por curiosidade, depois tomei gosto e hoje quero ser o melhor", conta. Apesar do bom desempenho em física, ele não faz o estilo "CDF". No histórico, constam recuperações em português, geografia e história. "É que essas matérias eu não gosto muito de estudar, não tenho curiosidade de ir atrás e descobrir nada, como acontece com a física", justifica.

Emanuelle Roberta da Silva, a Manu, também não se encaixa no estereótipo "nerd" esperado dos participantes da Olimpíada. Boa aluna, não tira notas baixas, mas confessa que tem facilidade na escola e que não passa o dia inteiro com a cara nos livros. "Estudo mais as matérias de humanas, em que tenho mais dificuldade. Mas não sou do tipo que deixa de sair ou ensaiar para ficar estudando", afirma. A Carpe Diem, sua banda de pop/ rock, se apresenta em bares e festivais de música. No ano passado, ganharam da rádio Brasil 2000 o prêmio de grupo revelação do ano, além de melhor letra no festival do colégio onde estuda.

O gosto pela física, segundo ela, é antigo, e a participação na Olimpíada se deve ao desafio. "Esse tipo de competição é boa para você se testar", afirma. Manu viajou este mês para a Suíça onde, junto com outros estudantes, representou o Brasil no Internacional Young Physics Tournemant (Torneio Internacional de Jovens Físicos). Ela e mais quatro estudantes conquistaram o sétimo lugar para o Brasil.

Competição O perfil clássico de competidor não poderia ficar de fora. E seu representante é Rafael de Moura Marera. Estudante de escola pública, é o típico aluno exemplar. Senta na frente, presta atenção à aula, faz a lição de casa... Para as fotos desta reportagem, escolheu como cenários o laboratório de ciências e a biblioteca da escola.

"Gosto de estudar. Estudo mais quando tem prova, na verdade, mas nunca tirei nota baixa. Minha última nota de ciências foi dez" conta, orgulhoso. Rafael foi convidado pela escola a participar da Olimpíada –o que é uma raridade, uma vez que, segundo os organizadores da competição, em geral a rede pública não incentiva os alunos. Apesar disso, a porção delas é representativa: 40%.

As escolas particulares, que ficam com os outros 60%, estimulam os alunos e organizam cargas especiais de preparação. Enquanto Manu e Felipe estão tendo quatro horas a mais de aula por semana desde março, Rafael se prepara sozinho em casa. Talvez por isso, em cinco edições, nenhum aluno de escola pública foi premiado.

"O olhar das escolas públicas para esse tipo de competição é o mesmo que para o vestibular. Infelizmente, na escola pública o aluno não aprende a ter perspectivas, só aprende a ler e escrever e ganha um diploma para conseguir um emprego melhor que o dos pais", acha o educador Daniel Rodrigues Hernandez, do Instituto Paulo Freire.

Não é o que diz a Secretaria Estatual de Educação, que afirma incentivar a pariticipação dos alunos nessas atividades. Mas não há dúvida que na escola particular há maior preocupação com a competitividade do mercado de trabalho.

"Por isso, ela tende a incentivar seus alunos a serem os melhores, cobram isso", diz Daniel. Ele ressalta que não concorda com a alta dose de competitividade que algumas particulares são capazes de instilar nos alunos, no que chama de "meritocracia" ou cultura da rivalidade. "A educação é muito mais que isso, mas, num país em que ela é tão deficitária, vale mais uma escola fazer seu aluno ser o melhor no vestibular, mesmo que seja para usá-lo como propaganda, do que não incentivá-lo a ter um futuro."

A Olimpíada Paulista de Física, que existe nos moldes atuais desde 2001, será em duas fases, abordando, além da física, elementos de astronomia, geociências e ciências atmosféricas. Os alunos que obtiverem o melhor desempenho vão receber medalhas e bolsas de estudo para a Escola Avançada da USP e do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica).

Os dois melhores colocados do primeiro ano do ensino médio ganham uma bolsa de estudos de duas semanas no Canadá. Os alunos de escolas públicas concorrem a bolsas para escolas particulares. No ano passado, cerca de 16 mil estudantes participaram da disputa. Quem tiver interesse, nem que seja para testar seus conhecimentos ou, como diz Felipe, "aprender a olhar a física de outra forma" pode se inscrever gratuitamente pelo site www.aprofi.org.



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31/07/2005

 
Test drive forçado

"A Olimpíada abriu minha cabeça e me deu uma base forte em física e matemática. Foi uma excelente preparação para a prova do ITA, porque exige conhecimentos que nenhuma escola dá", afirma Gilson Nascimento Maia, 21, vencedor da primeira edição da Olimpíada Paulista de Física, em 2001, hoje no quarto ano de engenharia mecânica aeronáutica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

Filho de donos de uma lanchonete em Mogi das Cruzes, Grande São Paulo, e único com interesse pela física na família, Gilson ganhou uma viagem para o Reino Unido, com todas as despesas pagas, e um curso de inglês em Cambridge, oferecido pelo Conselho Britânico.

"Eu não falava bem inglês e lá pude aprender melhor, mas a chance de conhecer o local onde Isaac Newton fazia suas pesquisas foi o ponto alto da viagem", diz ele, que cursou até o fim do ensino fundamental em escola pública e fez o colegial como bolsista em uma escola particular.

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