O Brasil, a
partir de amanhã, disputa medalhas na Indonésia. Com pouca torcida e
nenhum financiamento público, seis brasileiros - quatro meninas e dois
meninos de até 15 anos - participarão de três dias de provas. Outros 39
países fazem parte da 1.ª Olimpíada Internacional Junior de Ciência.
Esse tipo de evento começou no Leste Europeu e se proliferou pelo
mundo, sempre revelando talentos e estimulando a busca do conhecimento. No
País surge também como uma tentativa de melhorar o fraco ensino de ciência
nas escolas.
"A parte mais legal da física é quando você entende por que as coisas
se movem, por que não escorregamos ao andar, essas coisas do dia-a-dia",
diz Adriane Bagdonas Henrique, de 15 anos. Medalhista de ouro em duas
olimpíadas nacionais de astronomia, ela falou ao Estado antes da viagem à
Ásia.
Adriane mora em Atibaia, interior do Estado, estudou até os 12 anos em
escolas públicas e, no ano passado, começou a participar de disputas em
física, biologia e português, entre outras. "O que menos faço é estudar",
garante. Dias antes do embarque, animava-se com a idéia de poder viajar
pela primeira vez sem os pais.
Adriane foi selecionada entre 120 estudantes inscritos de 200 escolas
para participar do torneio em Jacarta. Fez uma redação sobre a importância
da água, levou currículo, histórico escolar e cartas de recomendação. "O
ensino de ciências em geral é altamente teórico, são poucas as aulas em
laboratórios, poucas as possibilidades para o aluno criar", diz o
responsável pela seleção e também organizador da Olimpíada Paulista de
Física, Ozimar da Silva Pereira.
Menos de uma semana antes da viagem, os escolhidos tiveram três dias de
preparação no campus de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP).
"Vamos estudar até no avião", previa a outra participante Bruna Guidini
Santos, de 14 anos. "Afinal, estamos representando o País."
Na olimpíada, eles serão submetidos, pela primeira vez, a provas
práticas, além dos testes e das questões dissertativas sobre química,
física e biologia. "Mesmo assim, temos chance de medalha", diz Pereira. Os
dois professores que acompanham a equipe brasileira traduzirão as provas
do inglês para o português; e farão o inverso com as respostas dos alunos.
RANKINGS
Recentes relatórios internacionais têm evidenciado os problemas do
ensino brasileiro. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes
(Pisa), que avalia alunos de 15 anos, mostra o País sempre entre as
últimas posições. Um ranking da Unesco, que levou em conta os dados do
Pisa, colocou o Brasil na 37.ª posição em compreensão de leitura e na 40.ª
em matemática e ciências.
O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) realizou este ano diversos
projetos pilotos de olimpíadas de matemática apenas para alunos de escolas
públicas. No Piauí, foram 76 mil participantes, na Bahia, 30 mil. A
intenção é preparar o terreno para o lançamento, no início de 2005, da
primeira olimpíada nacional só para escolas públicas.
Atualmente, estima-se que mais de 500 mil adolescentes brasileiros
participem de disputas em várias áreas do conhecimento. "O menino estuda
cada vez mais para se sair melhor na competição, como numa prova
esportiva, a escola estimula seus estudantes, os pais pressionam a escola
a preparem melhor o filho", diz, sobre as olimpíadas, Cesar Camacho,
diretor do Instituto de Matemática Pública e Aplicada (Impa), ligado ao
ministério.
Os medalhistas freqüentemente recebem bolsas de iniciação científica ou
são convidados a participar de cursos especiais em universidades; surge aí
o primeiro contato com o ambiente acadêmico. Alex Corrêa Abreu, de 18
anos, já é mestre e prepara-se para ser doutor. Depois de ganhar ouro em
três olimpíadas, foi convidado a começar sua especialização no Impa, antes
mesmo da graduação. O diploma de mestrado e doutorado, que ele começou
este ano, assim como a faculdade de Matemática, só vem depois da
formatura. "As pessoas acham esquisito, mas eu acho desafiador", diz.
"Aqui, eu vi que a matemática não é chata como aprendemos no colégio.
Quero ser pesquisador."
Fora esse tipo de incentivo, quase não há dinheiro público para
patrocinar os competidores de olimpíadas. O MCT e o Ministério da Educação
(MEC) patrocinam algumas viagens internacionais de estudantes para os
eventos e ajudam em algumas olimpíadas nacionais. Adriane e Bruna, no
entanto, não conseguiram apoio e os R$ 12 mil que as levaram para a
Indonésia foram bancados pelos colégios particulares em que
estudam.