Se
quisermos construir um país mais justo, avançado e
competitivo nesse mundo global, temos de ter uma
educação básica que se nivele à dos países mais
avançados
Paulo Renato Souza
(paulo.renato@isd.org.br) foi ministro da Educação no
governo FHC, gerente de Operações do BID, reitor da
Unicamp e secretário de Educação de SP no governo
Montoro. Artigo publicado no “Estado de
SP”:
Nosso país deu saltos importantes em matéria
educacional a partir dos anos 90 do século
20.
Como já destaquei em meu último artigo neste
mesmo espaço, a evolução positiva observada recentemente
nos nossos indicadores de distribuição de renda está
associada à melhoria significativa de nossa situação
educacional, ocorrida de forma especial nos últimos dez
anos.
Isso é muito importante, mas não é
suficiente. É preciso transformar a questão da melhoria
da qualidade da educação em nossas escolas públicas numa
verdadeira obsessão nacional.
Sem dúvida, vivemos
um mundo completamente diferente do que existia há
apenas 20 anos. Naquela época, meu posto de observação
da realidade era a Secretaria de Educação do Estado de
SP.
A sociedade brasileira como um todo ainda não
havia despertado para a importância estratégica da
educação para a vida das pessoas, para a construção de
uma sociedade mais justa e para a inserção da economia
nacional no mundo global.
Em geral, o compromisso
com a educação era um discurso pronunciado da boca para
fora pelas lideranças de nossa sociedade, sem refletir
convicções que se traduzissem em ações
efetivas.
Hoje, os jovens sabem que sem educação
não irão a parte alguma no mundo do trabalho;
os
adultos em massa voltam a estudar; as empresas exigem o
nível médio de escolaridade para qualquer função, por
mais simples que seja;
os empresários dedicam
somas apreciáveis de recursos para ações de
responsabilidade social nessa área;
e as
lideranças da sociedade e do mundo político passaram a
encarar com mais seriedade o tema, o que se traduziu na
adoção de medidas importantes e em avanços notáveis num
período curto de tempo.
Essa atualidade da
educação na sociedade não é um fenômeno brasileiro - é
mundial.
A organização econômica que congrega os
países desenvolvidos, a OCDE, criou um importante
sistema de avaliação educacional, o Programa
Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em
inglês), para testar habilidades e competências
cognitivas de jovens de 15 anos de idade em todos os
seus países membros.
A iniciativa vem tendo
enorme repercussão. Os resultados relativamente ruins
alcançados pela Alemanha, por exemplo, geraram intenso
debate político nacional e reformas educacionais
importantes estão em gestação ou já sendo
implantadas.
Por outro lado, o prefeito de Nova
York declarou que deseja ser julgado pela evolução dos
resultados dos alunos das escolas da rede pública nos
testes de avaliação, como destacou o jornalista Gilberto
Dimenstein em artigo recente na Folha de
S.Paulo.
Desenhou um ambicioso plano para a
melhoria da qualidade das escolas públicas da cidade e
conseguiu mobilizar doações de mais de US$ 1 bilhão dos
empresários locais, dando nova dimensão às ações de
responsabilidade social na área da educação:
em
vez de iniciativas exclusivas do setor privado, agora os
recursos doados se destinam a apoiar iniciativas
definidas e adotadas pelo poder público.
Entre
essas se contam, por exemplo, a construção de escolas
públicas de pequeno porte ou a instalação de uma
academia para o treinamento de diretores de
escola.
A experiência nova-iorquina ensina duas
coisas: a importância que as lideranças políticas nos
países mais avançados vêm dando ao tema da qualidade da
educação básica e o grau de envolvimento das lideranças
empresariais nessas mesmas preocupações.
As
avaliações internacionais da OCDE, por meio das duas
edições do Pisa, mostram nosso país numa posição muito
desvantajosa em relação aos mais desenvolvidos no que se
refere à qualidade da educação básica medida pelos
níveis das habilidades e competências cognitivas
alcançados pelos nossos jovens.
Quando decidi,
como ministro da Educação, que voluntariamente
participaríamos do Pisa, eu sabia que o resultado seria
muito ruim, como de fato foi.
Minha intenção não
era a de contribuir com o exercício da autoflagelação,
que tem enorme popularidade em nosso país. Ao contrário,
foi mostrar um rumo e um parâmetro para a nossa educação
básica.
Se quisermos construir um país mais
justo, avançado e competitivo nesse mundo global, temos
de ter uma educação básica que se nivele à dos países
mais avançados. Simplesmente não podemos aceitar uma
educação de segunda.
O sistema educacional
brasileiro é bastante descentralizado e a gestão das
redes escolares públicas está nas mãos dos Estados e
municípios.
Por isso, um programa de melhoria da
qualidade das escolas deve necessariamente partir dessas
instâncias federativas.
Defendo uma revolução na
qualidade de nossas escolas públicas em São Paulo,
colocando-as num nível de Primeiro Mundo, pois hoje
temos condições de sonhar com isso num horizonte de
tempo que está ao alcance de nossa vista.
A
melhoria nas finanças estaduais promovida nas gestões de
Mário Covas e Geraldo Alckmin no Estado criou as
condições para que os significativos investimentos
necessários possam ser equacionados no seu devido tempo
para esse objetivo.
É muito importante que o
Estado de SP se lance a esse objetivo de forma decidida
e autônoma por duas razões: porque tem condições de
fazê-lo e porque assumirá a liderança de um processo no
nosso país que certamente envolverá rapidamente toda a
sociedade brasileira e induzirá os demais Estados a
seguir o exemplo de objetivos, metas e
políticas.
Assim como no passado nosso estado
liderou o país em outras áreas - especialmente na
economia, mas também na criação do seu sistema
universitário público atual -, a exigência hoje é que
faça a revolução na educação básica que haverá de
colocar nosso país definitivamente no século 21. (O
Estado de SP,
23/1)