Temos a síndrome de Santos
Dumont?, artigo de Carlos Henrique Brito Cruz
Ciência e conhecimento são fundamentais para o
desenvolvimento do Brasil, para a criação de riqueza, de
empregos e de oportunidades
Carlos Henrique
Brito Cruz é diretor científico da Fapesp e professor no
Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp, de onde já
foi pró-reitor de Pesquisa e reitor. É membro da
Academia Brasileira de Ciências desde 2000. Artigo
publicado no Aliás Debate, caderno de “O Estado de
SP”:
Há um movimento e uma sucessão de fatos que
permitem um olhar ainda cauteloso, mas otimista, sobre o
impacto do conhecimento na vida nacional - embora várias
nações tenham percebido isso bem antes do que nós.
Ciência e conhecimento são fundamentais para o
desenvolvimento do Brasil, para a criação de riqueza, de
empregos e de oportunidades.
Basta lembrar o
bem-sucedido agronegócio, cujo sucesso se baseia, em
grande parte, em desenvolvimentos científicos e
tecnológicos criados por cientistas brasileiros para
vários tipos de cultura: soja, milho, cana-de-açúcar,
arroz.
Outro exemplo é a extração de petróleo: o
Brasil consegue produzir, pelo menos com essas taxas de
crescimento econômico, todo o petróleo que precisa
usar.
É uma realização que vem de ciência, de
tecnologia e de engenharia, feita por iniciativa
nacional.
As possibilidades, no entanto, poderiam
ser maiores. Há no Brasil um desequilíbrio. De um lado,
a atividade de pesquisa no mundo acadêmico: os
estudantes formados nas melhores universidades
brasileiras são competitivos e visíveis no mundo da
ciência internacional.
De outro lado há um setor
onde nós temos desafios a vencer: a pesquisa industrial,
feita dentro das empresas. Gerou-se a idéia de que o
único lugar para se fazer pesquisas é a
universidade.
Isso é um equívoco. Empresas têm
laboratórios em vários países, que realizam
investigações revolucionárias - às vezes ganham prêmios
Nobel - e também laboratórios que fazem o arroz com
feijão, pesquisam o que fará a empresa ser competitiva
na semana que vem.
Apenas 20% dos cientistas
trabalham para indústrias no Brasil. Nos países
desenvolvidos, o índice é de mais de 60%. Esse
desequilíbrio ocorre porque as indústrias enfrentam
obstáculos grandes para realizar um investimento cujo
retorno vem a prazo médio ou longo.
E esse
desequilíbrio cria pressões sobre o mundo da pesquisa
acadêmica, que tende a afastá-lo de sua missão. A
pesquisa acadêmica não existe para criar benefícios na
semana que vem, seu compromisso é descobrir algo para
que a humanidade seja melhor.
Mas acaba ocorrendo
uma pressão: “ah, mas a universidade faz pesquisa que
ninguém entende.” A universidade vai contribuir se
educar bem seus estudantes e se mantiver contato com o
avanço da ciência no mundo.
São outros setores da
sociedade que também precisam fazer pesquisa, como a
indústria e o governo, que têm a missão de resolver os
problemas da semana que vem. O lugar onde existe a
conexão com o mercado, com a oportunidade é a indústria,
não a universidade.
Eu terminaria destacando
áreas de pesquisa nas quais o Brasil tem oportunidades
importantes à frente. O país construiu uma vantagem na
produção de energia da biomassa, o etanol com a
cana-de-açúcar.
Houve iniciativas estatais - que
todo mundo pensa que vêm de 1975, mas na verdade em 1931
já havia a lei que obrigava a pôr etanol na gasolina.
Mas em 1975 virou uma ação de Estado que criou
oportunidade para que o setor privado avançasse. Até
agora não surgiu nenhuma planta que faça energia tão bem
quanto a cana-de-açúcar.
E o Brasil tem uma
vantagem importante porque a terra é boa para plantar e
produzir.
Mas esse também é um dos assuntos com
grande potencial de gerar de novo a síndrome de Santos
Dumont, aquela que diz: “ah, fomos nós que inventamos,
mas outros é que estão ganhando dinheiro com
isso”.
Dumont inventou o avião, mas o Brasil
ganha muito pouco com ele. O país mostrou para o mundo
que é possível fazer um país funcionar movido a etanol,
agora temos de fazer isso para o mundo. Outro tema que
eu destacaria é o meio ambiente e a
biodiversidade.
O Brasil tem vantagens
comparativas importantes. Se houver pesquisa em
intensidade adequada, se houver esforço para entender e
desenvolver, acoplando sempre a iniciativa do setor
estatal com o setor privado, o país tem condições de
usar melhor essas vantagens. (O Estado de SP,
15/9)