Embrapa apóia escolas de São
José dos Campos no desenvolvimento de experimentos a
serem testados no espaço
Os
experimentos de 16 crianças de quatro escolas municipais
foram selecionados pela Agência Espacial Brasileira
(AEB) para testados durante o vôo do primeiro astronauta
brasileiro, Marcos Pontes, em 30 de março
É a
primeira vez que alunos do ensino fundamental participam
de uma missão espacial. Jovens de outros países, como
Portugal e Itália, já fizeram parte, mas eram estudantes
universitários ou de ensino médio.
Os
experimentos, que visam avaliar a germinação de sementes
de feijão e a cormatografia de clorofila em condições de
microgravidade, contaram com o apoio da Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia, uma das 40 unidades da
Embrapa, em todas as etapas de seu desenvolvimento.
Além de ceder as sementes de feijão e o extrato
de clorofila concentrado, a Unidade da Embrapa colaborou
também na produção dos protótipos finais dos
experimentos, que estão sendo avaliados por uma comitiva
russa na sede do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, de 23 a 26 de
janeiro.
Os testes definirão os experimentos que
efetivamente vão integrar a missão “Centenária”, assim
denominada em homenagem ao vôo histórico de Santos
Dumont com o 14 Bis há 100 anos.
“A Embrapa foi
uma parceira e tanto”, afirmou a secretária de Educação
de São José dos Campos, Maria América de Almeida
Teixeira.
“Sem o apoio dos pesquisadores
Antonieta Salomão e Roberto Vieira nós não teríamos
conseguido sementes de feijão e o extrato de clorofila
com a qualidade necessária e também não teríamos
condições de preencher os formulários necessários ao
embarque do material, que são muito detalhados e
exigentes”, continuou a secretária.
Ela vê a
formação de parcerias como condição fundamental para o
bom funcionamento das instituições nos dias de
hoje.
“Especialmente quando se trata de
instituições educativas”, frisou. Hoje as 38 escolas do
município de São José dos Campos, estão interligadas em
rede. Elas contam com cerca de 35 mil
alunos,
“Com a participação na missão
‘Centenário’ e a colaboração da Embrapa, vamos ampliar
nossos horizontes. O conhecimento tem que sair dos muros
do município”, ressaltou a secretária.
Feijão:
preferência nacional, agora no espaço
O protótipo
do experimento das escolas com sementes de feijão foi
desenvolvido no mesmo padrão do que está sendo conduzido
pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia com
sementes de Gonçalo Alves.
Só que ao invés de
dez, serão enviadas cinco sementes, fixadas por fita
especial e acompanhadas de seringa com água. Depois,
esses materiais são acondicionados numa bolsa de 22 X 22
cm e, ao todo, pesam 400 gramas, que é o peso máximo
permitido para embarcar na nave.
O experimento
para avaliação de sementes de feijão em microgravidade
foi escolhido pela facilidade e rapidez de germinação
dessas sementes, além do fato de ser uma espécie
resistente e muito apreciada na culinária
brasileira.
Mas, acima de tudo, o principal
motivo para a escolha dessa leguminosa foi mesmo a
intimidade que o público infantil tem com o seu processo
de germinação. Afinal, quem nunca plantou sementes de
feijão num algodãozinho dentro de um
copo?
Segundo Maria Aparecida Pereira, professora
do ensino fundamental e coordenadora do experimento de
feijão que está sendo levado ao espaço, as pesquisas com
feijão fazem parte da vida dos estudantes desde os
primórdios de sua vida escolar e, por isso, ele foi
selecionado.
Só que as crianças, que hoje cursam
as 7ª e 8ª séries do ensino fundamental, vão galgar
degraus bem mais altos: diretamente do algodãozinho para
o espaço sideral.
Diferenças à parte, como
ressalta Maria Aparecida, o procedimento é
semelhante.
É interessante ressaltar ainda que as
sementes de feijão que viajarão para o espaço à bordo da
nave russa Soyuz faziam parte do banco genético da
Unidade.
Objetivo principal é aproximar a
ciência do dia-a-dia dos estudantes
Segundo a
professora, o principal objetivo do experimento
transcende a avaliação do processo de germinação das
sementes de feijão em condições de microgravidade. “Isso
é para os pesquisadores”, explica ela.
O
objetivo real dessa aproximação entre os estudantes do
ensino fundamental e a era espacial é incentivar o gosto
e o interesse pela ciência.
“Trazendo a
tecnologia para perto da realidade deles, estamos
colaborando para aproximá-los do universo científico e
tecnológico e, quem sabe, até mesmo para formar novos
astronautas?”, provoca Maria Aparecida.
Os
critérios para a escolha dos 16 aspirantes a futuros
cientistas foram: responsabilidade, interesse pela
ciência e disponibilidade no período de férias.
Assim como o experimento da Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia com as sementes de Gonçalo
Alves, o de feijão também terá um similar na Terra, que
será observado e fotografado diariamente pelas crianças,
para que depois possa ser comparado com o que será
documentado pelo astronauta brasileiro.
Avaliação
de clorofila também no espaço
A possibilidade de
verem seus experimentos científicos ultrapassando as
fronteiras da Terra é uma possibilidade ímpar para os
estudantes, como ressaltam os professores da rede
municipal de ensino de São José dos Campos, Selma Santos
e Airton Azevedo, responsáveis pelo experimento que vai
avaliar a cromatografia de clorofila a partir de um
extrato de couve, em condições de
microgravidade.
A clorofila concentrada foi
cedida pela Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnologia.
Segundo eles, a clorofila também
faz parte da vida letiva dos estudantes desde cedo,
quando aprendem que é a parte da planta responsável pela
absorção da luz no processo de fotossíntese.
Para
explicar o processo de cromatografia aos seus alunos de
7ª e 8ª séries, Selma e Airton costumam utilizar métodos
simples como uma caneta pilot de cor preta para mostrar
a separação de pigmentos.
“A partir desse
processo, eles conseguem visualizar quantas cores formam
uma cor”, ressalta Selma.
A cromatografia tem
como objetivo principal a separação de substâncias de
uma mistura com fins analíticos ou preparativos e é um
processo muito utilizado em laboratórios industriais, de
pesquisa e de ensino para os mais diversos fins, como
por exemplo, para análise das propriedades nutritivas de
alimentos; detecção de resíduos de pesticidas e
preparação de plantas medicinais, dentre
outras.
A análise cromatográfica é baseada em uma
fase estacionária, constituída de um material escolhido
para reter de forma diferenciada os componentes da
amostra que se deseja separar, e de uma fase móvel,
baseada na análise do material que se desloca pela fase
estacionária, arrastando os componentes da
amostra.
No caso do experimento das escolas, o
material que vai para o espaço é constituído de uma
placa, que representa a fase estacionária, e de uma
seringa contendo clorofila concentrada diluída em
álcool.
O álcool é o que vai fazer as moléculas
de clorofila se arrastarem, possibilitando a
visualização da separação dos pigmentos.
Segundo
os professores, a cromatografia de clorofila permite que
os alunos vejam de forma bem nítida a separação dos
pigmentos em: clorofila A (verde mais forte); clorofila
B (verde amarelado); xantofila (amarela) e os carotenos
(coloração alaranjada).
“Essa é uma forma simples
de explicar o processo desenvolvido hoje na indústria”,
enfatiza Selma.
A gravidade é um fator
determinante para que a separação dos pigmentos da
clorofila aconteça dessa maneira, já que as moléculas
mais pesadas são arrastadas para baixo.
Nas
condições de microgravidade existentes no espaço, pode
ser que o processo se dê de forma completamente
diferente.
“E é isso o que nós e os alunos, vamos
observar”, ressalta a professora. Assim como os outros
experimentos, este também terá um similar na Terra, para
ser observado concomitantemente pelas crianças e pelo
astronauta brasileiro.
“Vamos ficar para a
história”
Uma oportunidade única. Assim os alunos
vêem sua participação na missão espacial.
Segundo
Ana Elisa Borges Barcelos, 13 anos; Diego William
Ferreira, 13 anos, e Karina Ramos Martins, 14 anos, eles
estão tendo o privilégio de participar de um evento que,
sem dúvida nenhuma, vai ser determinante para o
desenvolvimento do Brasil e para projetá-lo no cenário
internacional.
Um dos motivos que levou os
professores a selecioná-los em meio a tantos alunos do
ensino fundamental foi o gosto pela ciência e eles não
descartam a possibilidade de se tornarem cientistas ou,
até mesmo, astronautas no futuro.
“Essa
oportunidade faz com que a gente se sinta importante”,
ressalta Karina Martins.
“Vamos ficar pra
história e ter o que contar a nossos filhos e netos.
Quem sabe possamos até merecer uma estátua em praça
pública!”, sonha a menina.
O plano dos
professores e dos alunos envolvidos nesse projeto é
divulgar e dividir a experiência com os outros alunos da
rede municipal de São José dos Campos e de outros
estados brasileiros. (Fernanda Diniz, da Embrapa
Recursos Genéticos e Biotecnologia) (Coordenação de
Comunicação Social da
AEB)