O
economista Cláudio de Moura Castro afirma que não
existem três países no mundo em que a pesquisa
científica tenha crescido tanto quanto no
Brasil
A declaração vem acompanhada por números:
o país exporta 1% do comércio internacional e exporta
1,5% da ciência internacional.
Embora os dados
sejam animadores, diz que é necessário outro passo:
“Precisamos perder milhares de cérebros, porque essas
pessoas vão fazer a diáspora com quem está
aqui”.
Atualmente, Moura Castro é presidente do
Conselho Consultivo da Faculdade Pitágoras, autor de 35
livros e de mais de 300 artigos científicos. Suas
opiniões são polêmicas, sobretudo em relação à atual
política nacional.
Favorável à entrada do
capital estrangeiro no sistema educacional brasileiro e
defensor das Universidades com fins lucrativos, ele
esteve em Brasília na última terça-feira, 23 de agosto,
para lançar o livro Crônicas de uma Educação Vacilante
(Editora Rocco), seleção de textos publicados na revista
Veja nos últimos dez anos.
A seguir, principais
trechos da entrevista que concedeu à Assessoria de
Comunicação do Cespe/UnB:
Podemos ser otimistas
em relação ao ensino de nível superior no
Brasil?
– Razoavelmente otimistas. Por exemplo,
quando me lembro dos meus colegas de economia e quando
vejo as turmas que entraram depois, posso dizer que os
pesquisadores de hoje são muito melhores. O que há é o
seguinte: os bons estão cada vez melhores, mas entrou na
Universidade uma multidão de gente mal preparada. Está
entrando gente virtualmente analfabeta, ou para usar o
termo técnico, analfabeto funcional. Isso também
acontece nos EUA, onde você tem uma proporção de 10% ou
15% de pessoas que entram no ensino superior e também
são analfabetos. Diante da inação do Estado para
consertar o ensino fundamental, isso é um mal menor,
porque você conserta no nível que não era para
consertar. Para falar em termos extremos, o menino entra
analfabeto e sai sabendo ler e escrever.
Existe
um descaso com o ensino fundamental?
–
Totalmente. A década de 1990 foi a única na história do
Brasil em que prestamos atenção e demos prioridade ao
ensino fundamental e médio. E agora, nos anos 2000,
nenhum ministro parou e disse “a grande prioridade deste
governo é o ensino fundamental”. Na minha cabeça, deve
ser a única prioridade. O resto é perfumaria. Se você
faz isso, o ensino superior se conserta sozinho.
O Programa de Avaliação Seriada (PAS) da
Universidade de Brasília (UnB) contribui na redução da
distância entre o ensino médio e o superior?
– O
PAS tira o fator traumático do vestibular, começa a
fazer o aluno estudar um pouco antes. Não é uma política
de inclusão, é uma solução educativa em vez de ser
social, por isso, o Programa nem ajuda nem atrapalha
quem fica de fora. É um modelo que esparrama pelo tempo,
então despolariza aquele trauma, dirige melhor o esforço
do aluno. É uma solução para alunos que, ao se auto
definirem com boas chances de entrar na UnB, já estão
descolados do resto.
Como o senhor avalia o
projeto de Reforma Universitária concluído pelo
MEC?
– Que reforma?
Não podemos falar em
reforma? O projeto elaborado pelo Ministério da Educação
não avança o debate?
– O projeto não tem uma
concepção da Universidade que a gente gostaria de ter
daqui a uns anos. Todos os países que fizeram esse
exercício, entre eles Chile, Singapura e Coréia,
convergiram no mesmo: queremos umas poucas Universidades
com padrão internacional. São países que querem dar o
salto na educação superior. Se você procura isso na
nossa reforma, não encontrará nem diagnóstico do passado
nem visão do futuro.
Qual é a debilidade do
projeto?
– Esse projeto só faz mostrar a
xenofobia do Ministério, porque essa lei não serve para
nada. O que acontece? Eles fizeram uma lei que diz que
as instituições com objetivo de lucro só podem ter 30%
do capital, mas esqueceram de ver se existem
instituições com objetivo de lucro fora do Brasil com o
perfil de vir para cá.
O que muda em uma
Universidade com objetivo de lucro?
– Você não
precisa dar satisfação a ninguém. O que significa? São
vantagens de simplificação administrativa, quer dizer,
eu pago imposto e não preciso inventar historinha para
ninguém. O Pitágoras é assim.
O senhor acredita
que a reforma será aprovada pelo Congresso
Nacional?
– Há uns meses, alguém diria que o
Congresso estaria passando por isso? O fator fundamental
é que a reforma do lado público custa mais de R$ 4
bilhões, porque é o preço de tirar os inativos da folha.
Ora, com muito sacrifício, O MEC conseguiu uma promessa
de receber R$ 3 bilhões da Fundep, agora depois disso
vai ganhar mais R$ 4 bilhões para tirar os inativos? O
governo terá coragem de tirar os inativos? Isso é uma
bola de neve incontrolável. Se abrir o precedente de
tirar os inativos do MEC, o que fazer com os outros?
Acho pouco provável que a Fazenda esteja disposta a
botar quatro mais 4 bilhões na educação.
Então, o
projeto chega a ser inviável?
– Sim, porque é uma
autonomia sem prestação de contas, mas também um apoio
financeiro. Se você tira esse apoio, dificilmente as
Universidades públicas vão aceitar essa reforma.
Ou seja, na opinião do senhor a proposta vai
fracassar.
– E fazer o quê? Reformar somente o
privado? Quer dizer, fazer uma lei em que todos metem a
mão no privado e o dono não manda? É muito difícil. Você
tem cem deputados que, direta ou indiretamente, estão
envolvidos com o ensino privado. Se bem que você nunca
sabe o que esperar do Congresso. Têm coisas que às vezes
passam numa votação à noite, mas neste caso é difícil
imaginar.
No ranking das 200 melhores
Universidades do mundo não consta nenhuma instituição
brasileira. Estamos tão mal assim?
– Existem
críticas aos critérios utilizados nessa pesquisa, mas
uma coisa é certa: o erro metodológico não vai mudar a
realidade. Se você mexer, mexer... não estarão 30
brasileiras.
E as melhores estão nos
EUA.
– Os EUA lideram essa lista. Entre as 35
melhores do mundo, cerca de 20 são americanas. O que os
europeus fazem para não perder os seus melhores
pesquisadores para as Universidades americanas é um
absurdo. E sempre foi o destino preferido dos
pesquisadores brasileiros. Tínhamos esse dado nas
avaliações que fazíamos para os alunos que ganhavam
bolsa da Capes.
Os pesquisadores brasileiros saem
e voltam ao país?
– Voltam, todos. Você não tem
três países no mundo em que a ciência tenha crescido
mais que no Brasil. Com exceção da Coréia e talvez
Taiwan e China, que disputam com o Brasil o crescimento
da ciência. Quantos dos 30 países que produzem ciência
pertencem ao 3ª mundo? Supondo que a Coréia não é 3º
mundo, só tem Índia e China.
Quais são as
características do Brasil em pesquisa?
– Tem uma
característica interessante: o Brasil exporta 1% do
comércio internacional e exporta 1,5% da ciência
internacional. É fantástico! O Brasil não perde
cientistas. E tem 5% dos pesquisadores estrangeiros.
Quando você põe a perda de cientistas numa tabela, o
Brasil não chega a aparecer nela.
Então, não
podemos falar em fuga de cérebros no Brasil.
– Eu
falo sempre: a gente precisa perder mais cérebros. Muito
mais! Precisamos perder milhares de cérebros, porque
essas pessoas vão fazer a diáspora com quem está aqui.
Precisamos fazer como os coreanos e os chineses, que
estão nos EUA fazendo pesquisa. Ou os indianos, que vão
para lá e contratam os amigos da Índia. O Brasil produz
nove mil doutores por ano e, se perde dez, perde muito.
É preciso que as pessoas trabalhem na Alemanha, na
Inglaterra... Porque eles vão mandar e-mail contando
como está a pesquisa por lá e vão convidar os daqui para
seminário, por exemplo. Não perdemos o bastante. Nos
três anos em que fui diretor da Capes, não teve um
pesquisador que não voltou. Nenhum! Na época, a gente
ficava satisfeito, mas hoje não penso assim.
Os
pesquisadores da Capes assumem o compromisso de voltar
ao país.
– É, mas agora precisa ficar mais.
Estamos competindo com a Coréia e os coreanos ficam nos
EUA. (Assessoria de Comunicação do
Cespe/UnB)