Pela
primeira vez, governo financiará núcleo de apoio a
alunos com ‘alta habilidade’, que são 5% da população
Ricardo Westin escreve para “O Estado de
SP”:
Quem disse que só os maus alunos precisam de
atenção? Pela primeira vez, os pequenos “gênios”
ganharão tratamento especial do governo. O Ministério da
Educação acaba de liberar perto de R$ 2 milhões para
que, ainda neste semestre, cada Estado crie pelo menos
um centro de apoio aos alunos superdotados das escolas
públicas.
A nova política se justifica.
Especialistas estimam que até 5% da população tenha
altas habilidades acadêmicas. Apesar do número
considerável, muitos talentos se perdem pelo caminho por
falta de incentivo. A maioria dos professores não está
preparada para lidar com eles.
O Censo Escolar
de 2004 apontou só 2.006 superdotados nas escolas
públicas e particulares do País, o que não chega nem a
0,005% dos 43 milhões de alunos da educação básica
regular (da 1ª série do ensino fundamental ao 3º ano do
ensino médio).
Como são os colégios que respondem
ao questionário, esse percentual ínfimo leva à conclusão
de que os professores não conseguem sequer identificar
um superdotado na sala de aula.
O superdotado é,
em poucas palavras, uma pessoa que se destaca em alguma
área de conhecimento. Como sabe mais e aprende mais
rapidamente que os colegas, esse aluno muitas vezes se
desinteressa da escola. Professores e pais normalmente
confundem com déficit de atenção e
hiperatividade.
O rótulo de gênio nem sempre
serve porque ele pode ser brilhante numa única área e
não ir tão bem nas outras. “É comum que ele mude de
escola sem nem saber o motivo”, explica a professora
Valéria Sperandio Rangel, uma das coordenadoras do
programa do MEC.
Professora revoltada
Foi
o que aconteceu com Giovanna Oliveira, então com 4 anos.
Os pais eram sempre chamados na escola por causa do mau
comportamento. “Toda semana tinha uma reclamação”,
lembra a mãe, Cláudia Abrantes Oliveira.
“Certa
vez ela ficou tão entediada que conseguiu mobilizar
todos os coleguinhas e levá-los para o parque da escola.
E isso foi no meio da aula. A professora ficou
revoltada.”
Com tantos problemas, a mãe decidiu
tirá-la do colégio. Na nova escola, a menina passou por
testes psicológicos. Foi então que Cláudia descobriu que
tinha um pequeno talento em casa. Hoje com 9 anos,
Giovanna se prepara para começar a 4ª série.
Está
um ano adiantada porque não precisou fazer a 1ª série.
Não estuda para as provas – para ela, basta prestar
atenção nas aulas. No ano passado, a menor nota foi 8.
Suas amigas são mais velhas, a maioria na faixa dos 12
anos. Já leu clássicos como Robin Hood e 20 Mil Léguas
Submarinas, algo incomum para uma menina que acaba de
completar 9 anos.
“Tenho colegas que vão à
biblioteca e pegam livrinhos de seis páginas. Eu não,
gosto de ler coisas que me acrescentem algo”, diz ela.
Material e transporte
A primeira tarefa
dos núcleos de superdotação nos Estados será ensinar os
professores a identificar esse aluno. “Alguns deles
gostam do aluno que faz muitas perguntas. Mas a maioria
não. Muitos professores se sentem ameaçados, desafiados,
acham que o estudante está competindo com eles”, diz a
psicóloga Angela Virgolim, presidente do Conselho
Brasileiro para Superdotação.
Os núcleos também
atenderão os pais e os próprios superdotados.
Identificados na escola, os alunos serão encaminhados
para esses locais para fazer cursos que estimulem seu
potencial. Quem tem facilidade com números, por exemplo,
poderá fazer um curso avançado de matemática – algo que
a família de um estudante de escola pública normalmente
não poderia pagar.
Parte dos R$ 2 milhões chegou
aos Estados na forma de cursos de capacitação e de
materiais, como computadores e aparelhos de TV e DVD. No
final do ano passado, o MEC reuniu em Brasília um
professor de cada Estado para um curso intensivo de
pedagogia para superdotados. Esses professores agora
estão responsáveis por repassar os conhecimentos aos
colegas. Depois dessa iniciativa do governo federal, o
programa agora está nas mãos dos Estados.
Em
Mato Grosso do Sul, o governo paga o material didático e
até o transporte para que os alunos cheguem ao
professor. O centro para superdotados, uma sala no
prédio da Secretaria da Educação, em Campo Grande, tem
pedagogos e psicólogos. “Um talento não identificado e
não estimulado é um talento desperdiçado”, diz a
coordenadora, Márcia Nunes Benevides.
‘Não se
pode confundir com genialidade’
Os superdotados
são pessoas que têm facilidade em determinada área do
conhecimento. No caso das crianças, as características
mais comuns são andar e falar mais cedo, ser mais
curioso, ter boa memória e se relacionar com crianças
mais velhas.
“Quando se identifica um
superdotado recai sobre ele toda a pressão da
genialidade. Mas essa é uma idéia sedutora e mentirosa”,
diz o neuropsicólogo Daniel Fuentes, do Hospital das
Clínicas da USP. “O gênio é uma pessoa que deu uma
colaboração ímpar para o mundo, como Einstein e Mozart.
Um gênio é sempre um superdotado, mas nem todo
superdotado é um gênio”, acrescenta a psicóloga Angela
Virgolim.
A identificação de uma criança
superdotada é normalmente feita por entrevistas com a
família e testes de QI, inteligência emocional e
aptidões. Muitos só se descobrem superdotados quando
fazem testes de orientação vocacional antes do
vestibular.
Segundo especialistas, a
superdotação tem origem genética. Mas, por si só, não
basta. A característica só se desenvolve se for
estimulada. Entre 3% e 5% da população é superdotada.
A superdotação é considerada uma das diversas
“altas habilidades”. As outras são o esporte, a arte, a
criatividade e a liderança. Considerando esse conceito
expandido, até 20% da população tem altas habilidades. O
novo programa do Ministério da Educação pretende
incentivar os estudantes com todos esses talentos.
(O Estado de SP,
17/1)